Zipper

(no subject)

No momento em que olhas para mim
Assim
Esse momento é irresolúvel, intransponível
E intransportável. Esse momento subsiste apenas por si, existe, tão somente, e avassaladoramente
Uma vibração de ar que passou
Uma gota que caiu, pingou
É aí, nesse momento,
É aí, nessa efemeridade,
Do que não voltando a ser, é sempre,
No futuro inegável, nesse vislumbre de infinitude que esse parado momento pare cada vez que acontece
É aí, nesse respirar doce que me acaricia a pele
Que te amo
Inegavelmente
Passageiramente
Nesse passar que passando, passará para sempre
Nesse passar que passando, se passará para sempre.

É nesse círculo que existo. É nesse ponto que te bebo. É nesse instante sagrado que deixo de ser eu para ser tu, para ser nós. É aí que te descubro. É aí que te toco, que te sinto a ti, o teu espírito, é aí que te consumo apaixonadamente, quando te sinto nesse círculo, nesse momento de gota que cai e que caindo não voltará a cair jamais, e que caindo, por isso, e assim, nunca jamais deixará de cair.
Zipper

(no subject)

Em pensamentos redondos, côncavos
Me perco eu
A verdade é que se te espelhas em mim
Nasces-me todos os dias
Em brechas de azul
Por onde me escoo
Neste presente irresolúvel
Não entendes que te quero aqui
Tu és aqui
Tu não existes, tu aconteces
Todos os dias neste mar azul.
rhizanthella, flower

Carlos VI (20Ago2011 | 15Out2011)

 A sombra da mão obscurece a escrita dos mais audazes.
 Sofremos por antecipação num rasgo de lucidez delirante, sofremos estupidamente pela noite que não chega. O sol brilha e nós sentimos o arrepio da brisa doce como rasgões numa pele dorida, dorida pelo passado. Gato escaldado de água fria tem medo, diz Giuseppe olhando pela janela. A sua alma jovem e rebelde sucumbira, num dia sem história, ao corpo envelhecido, prostrado ali numa cadeira de vime. O roçar das farripas da rede que lhe servia de assento perpetuavam os pequenos e suaves movimentos do seu corpo, o menear da sua cabeça enquanto anuia ao que ele próprio pensava e dizia. Tinha sido habituado ao longo da sua vida a ter sempre razão no seu instinto, sempre se lhe provou certo, mais tarde ou mais cedo. Isso impregnou-o de uma arrogância que o afundava numa dor indistinta, irreal, de que ele próprio se convencera havia muito. Viva só, numa casa à beira da praia, onde se ouviam os navios entrar no rio com os seus avisos lúgubres do costume e o ruído imperceptível da ondulação meia hipócrita daquelas águas mornas, suaves, quase entediantes, se não fizessem a qualquer um pensar na vida com um trago saudosista e doce, agradável. Perdia-se neste refúgio em pensamentos côncavos e redundantes quando pancadas secas na porta o acordaram do sono que não tinha. Levantou-se pesadamente da cadeira de vime e foi abrir, num misto de descontentamento pela interrupção do seu sagrado momento e de entusiasmo pela dúvida de quem seria o intruso.
 Abriu a porta. A silhueta dos cabelos negros e desgrenhados de Carlos desenhava-se-lhe contra o pôr-do-sol. Olá Giuseppe, disse-lhe calma e ternamente, como se a sua visita fosse tudo menos inesperada. O velho sorriu. Olha quem é ele, disse, com uma indiferença mal fingida. Após um momento de hesitação, Entra!, tás bem?, Tá tudo, passava por aqui de carro e lembrei-me de passar por cá, já não te via há tanto tempo... como andas?, perguntou Carlos. Tentava com a pergunta fingir preocupação pseudo-paternalista pelo velhote, mas mentia com quantos dentes tinha. Carlos via Giuseppe como um oráculo, não que dissesse as coisas mais acertadas, mas porque no meio da chafurdice do seu discurso, encontrava frequentemente uma luz, que não resolvia mas elucidava, não apontava o caminho mas iluminava. Portanto para Carlos aquelas visitas tinham o mais de egocêntricas que podiam ter, era com vista ao proveito próprio que lá ia, quando necessitava. A verdade é que Giuseppe suspeitava que em muito era esta a relação que os velhos têm com os novos, e que estes, como Carlos, um dia acabam por se aperceber que os amam, no meio da sua indiferença e rebeldia adolescente, como Carlos já o amava sem o saber.
 Senta-te aí, disse Giuseppe, apontando para um cadeirão velho defronte da mesma janela por onde olhava o mundo da cadeira de vime. Carlos adorava sentar-se naquele cadeirão, gostava da sensação de envolvência, conforto e segurança que lhe era suscitada quando, ao repousar todo o seu peso, se afundava no veludo, fazendo as molas velhas e inúteis cederem, rangendo ligeiramente. O sol punha-se, batia na cara dos dois uma luz avermelhada, calma. O velho olhava o novo, com a cabeça vazia de pensamentos, expectante; o novo olhava o velho com a cabeça cheia de uma qualquer dúvida existencial que não conseguia definir, ou seja, tinha a cabeça cheia de sabia lá o quê, e da boca não saía nada, embora desesperado por perguntar "aquela" pergunta, que lhe daria "aquela resposta" que resolveria "aquela" dúvida existencial. Esta sensação de busca sem rumo angustiava-o e cansava-o. Giuseppe olhava-o, com as sobrancelhas brancas e peludas ligeiramente franzidas, com olhar de análise, mas sem análise nenhuma, porque tinha a cabeça cheia de nada, esperava apenas, em branco, como só os velhos sabem fazer. Passaram-se alguns minutos, o velho esperando, o novo convulsionando, ambos inertes, um fingindo não estar em branco franzindo o sobrolho, outro fingindo estar em branco durante uma convulsão interna confusa. O sol fugia, já não se via, e Carlos levantou-se, Aí que estou atrasado, que horas já são (não estou nada, é mentira), Não faz mal não tem problema, volta quando quiaseres (escusas de mentir, vai-te lá embora), Faz mal então ainda agora cheguei, Não vou morrer amanhã, Adeus, passo cá em breve, Adeus, porta fechada, mãos no volante, caminho em excesso de velocidade, entra em casa, Vou mas é dormir, Clarisse já se deitou, Estava com sono..., Também eu, enfia-se na cama confuso e cansado, Boa noite, Boa noite, toca em Clarisse,
                           está nua.                             Olha Carlos com doçura, Carlos sente a sua vibração. Toca-lhe a pele quente, activa. Clarisse aproxima-se um pouco mais, sente a respiração de Carlos, beija-o, Carlos deixa-se fechar, convergir-se naquele beijo, e toda a sexualidade de Clarisse entra por Carlos adentro e enebria-o, já não são o Carlos nem a Clarisse, são um Homem e uma Mulher que se amam, e Carlos sente, na enebriação, a paixão de Clarisse tocar-lhe no âmago da alma, e encontram-se as duas paixões por igual e uma consola as dores da outra e os males de uma anulam os males da outra, e os bons de uma excitam os bons da outra, e convencem-se assim do brilho do mundo, da luz do futuro, convocando a fertilidade dos tempos e dos Homens, fazendo-os acreditar.

 No corpo é o Homem que penetra na mulher, e fecunda a sua carne com a sua vida, com a sua paixão; mas no espírito é a Mulher que penetra no Homem, com a sua paixão ao encontro da paixão dele, para o fecundar de vida e de luz, fazendo-o acreditar no absoluto da paixão dos dois e consequentemente na luz do Mundo; fazendo-o Homem.
rhizanthella, flower

(no subject)

Quando olho para ti
Assim no fundo do olhar
E me afundo nesse poço
E sinto o teu castanho
O mundo gira
Mais rápido
Quando te sinto comigo assim
Assim nesse fundo do olhar
E sinto a pele da tua alma
Sinto que o sol não se põe
Nunca
Quando sinto o poço do que sentes
Envolver-me nesse claro apagão
Sinto-te espreitar por detrás da orelha
Enquanto me sinto esquecer
Do meu redor
Enquanto o mundo gira
Mais lento
Enquanto me sinto chorar ao contrário
O contrário
Sinto que o sol não se põe
Nunca
Nesta tarde.
Neste texto sem medium.

Não gosto da palavra nunca. Mas gosto do que se sente quando se diz nunca.
rhizanthella, flower

(no subject)

 O sol do tempo já se desfaz
 Por sobre as tuas folhas verdes de milheiral
 E o teu cheiro a pó ainda me está entranhado na boca
 Quero mergulhar no teu sorriso, quero correr às gargalhadas por entre as fileiras de canas, com o vento a levantar poeira, com as moedas perdidas na terra, escondidas, quero perder-me no teu castanho.
 Quero que o Sol dure para sempre
 Quero que nunca se ponha, quero que se mantenha eternamente no pôr-do-sol que veio depois do meio-dia que apazigua os escaldões da alma.
 Quero-te em movimento na minha memória, quero o teu abraço morno, quero-te aqui, quero eternizar o sorriso franco que me fazes quando eu te faço sorrir! Quero lonjura da dor que vem de mãos dadas com os sentimentos fortes, quero a tua água de beber todos os dias na minha toca, quero que me rasgues a pele enquanto corro desenfreado,  naquelas canas, naquilo que sou, que fui, quero que me mordas a perna como cão raivoso que não quer largar por amor, embora toda a gente ache que foi por ira. Quero enganar o tempo, quero esquecer as desilusões do mundo, quero que o mundo esqueça as suas mágoas e se entregue sem reservas ao doce dia que nunca irá acabar, não são precisos agasalhos porque a noite jamais chegará, será sempre dia enquanto olhares assim para mim, enquanto essa vibração de folhas secas perdurar em mim, que será até ao sol se pôr, num dia sem fim.



rhizanthella, flower

(no subject)

Não sei que parte tu amas em mim.
Mas há de ser uma parte muito grande,
Para me amares assim.


::


Quando caí, pensei que tinha morrido.
Afinal não, tinha apenas estremecido.
Quando investiste, rompeste, eu dei-me por vencido
Espero que não tenha sido apenas
Por algo parecido.


::


                              Estranho tremor de alma
Breve, claro, louco fogo                              .
                              Que do meu umbigo pari
Que nos teus olhos senti                              .
                              Que nas noites de distância
Que me rasga o pensamento                              .
                              Me faz sentir falta de ti.
Em doces lembranças de ti.                              .

Zipper

(no subject)

Era a luz, era o cheiro
Era uma trémula candeia
Era o vento, era a ira
Era o desejo, era uma ceia
À luz da imaginação, à luz de uma alma
Que já não é da mesma côr
É do outro lado do mundo
É do outro lado do rio
É do outro lado de um espelho
Que existe no coração
Já fui
Onde estou? Não sei, onde estás?
Fui do porto, para este mar,
Alarguei a vela, e soprei
Sem pensar, arrisquei
E descobri-te, praia minha
E lambi-te, areia maldita
Que me gritou, lá do fundo
Que me deixou, moribundo!
Ah, que belo passar
Ah, que enlevo amar,
Ah, minha doce monotonia
Que me calou a voz, num luar
Vespertino, nesse pesar
Que me canta, p'ra m'enfeitiçar
Que me encanta, para me desnudar
Em quente abraço, em quente beijo
Em mágico tempo do não-passar

A onda veio numa manhã,
De amarrotar de jornal
Por lá fiquei, mas não vejo
Não vejo como, não vejo quando,
Só sei que não quero acordar.
Zipper

(no subject)

Perdi a minha alma
algures ficou, não sei onde
Fiquei eu aqui, tu aí,
despojos de mim
Não sei onde estou
Não sei aonde pertenço
Não conheço este caminho
A toca desabou.
rhizanthella, flower

Carlos V - 9/Dez/2010 20:46h | 18/Dez/2010 18h | 19/Dez/2010 17:25h

"Dentro de nós há uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos."
Ensaio sobre a Cegueira, J. Saramago

 A vida de vez em quando ensaboa-nos docemente, como se quisesse embalar alguma coisa que existe em nós que não sabemos definir mas que há lá no fundo. Se nos despojarmos do acessório, resta o subjectivo, o emocional; se ainda assim o que resta for também removido, descascado, até restar nada, esse ponto que nos define e de onde nos emanamos, esse ponto é a "alma", o "deus", o "espírito santo". É o que se consome com a dor, é o que vibra com a paixão, é o que se esvazia na saudade. É o que é embalado imperceptível mas avassaladoramente quando a vida nos ensaboa. E é tão bom.
 Carlos queria ser ensaboado. Desesperadamente. De que maneira fosse. E pensava nela, nela, nela, Em quem?, Não sei, naquilo, Sentado na créperie olhava pela vitrine e via as pessoas passar, e apaixonava-se, apaixonava-se, apaixonava-se, apaixona-me, anda, apaixona-me, embala-me e entorpece-me, revira-me e destrói-me para que reste apenas o ponto, para que reste apenas eu e não deixe rasto da minha carcassa, faz-me voar em sofrimento e sorrir pelo estúpido, e beijar o ignóbil, e amar o tosco, faz-me sentir que o Mundo existe para mim, faz-me escorregar atabalhoadamente pelas vielas, faz-me desejar o céu sem nunca o alcançar, Ensaboa-me...
 Pagou, saiu. Percorreu o caminho para casa maquinalmente, sem pensamentos, além do eco dos anteriores que lhe iam reverberando inconsequentemente na cabeça. Chegou mudo, e mudo permaneceu, para se sentar no sofá a olhar o infinito. Clarisse nem reparou. Saiu do quarto com um caderno na mão e entrou na sala despreocupadamente quando se apercebeu que Carlos já lá se encontrava, estacando violentamente durante aquele milésimo de segundo em que a percepção de Carlos na sala ainda era apenas "uma pessoa" na sala. Então?, nem te ouvi chegar! disse, deixando transparecer, embora sem intenção, o susto mascarado de irritação. Carlos nem se apercebeu, nem se importou com isso, já era traço dos dias, um hábito. Clarisse sentou-se no sofá como se Carlos já la estivesse há uma hora. De um momento para o outro, o ponto de Clarisse vibrou um pouco, deixando a descoberto o vazio em que afinal se encontrava, sem doer mas pungente. Olha Carlos, precisa de um pouco do cheiro dele, e cobrindo-se de indiferença no gesto, propositadamente mas sem grande objectivo se lho fôssemos perguntar, aproxima-se dele e beija-o na testa, quedando-se beijando-o uns doces momentos, fechando os olhos para se deixar absorver e concentrar-se na emoção que lhe saía dos lábios engrossados, unidos; afinal Carlos não via que havia fechado os olhos, só se podia aperceber de tudo quanto nela existia pelo que sentia na pele da testa, Carlos também fechou os olhos, quase sorriu. Acabado o momento fazendo juz à efemeridade, porque não podiam ficar assim para sempre, olha-o nos olhos e pergunta-lhe, ele sorrindo levemente, Então, como foi o dia?, encolhento os ombros responde despreocupadamente, Bom, normal... Mas ainda não podia acabar, Clarisse ainda vibrava, Carlos ainda se esvaziava, abraçaram-se, quentes, calorosos, fraternos, apaixonados, necessitados, um curto momento que vale o mundo, que vale a vida, e logo acabou, logo teve que ser cortado, e bruscamente, mas feliz, Clarisse volta ao seu lugar no sofá, ainda se olham nos olhos por um instante de cumplicidade, e finge ela submergir na leitura, e finge ele submergir nos seus pensamentos, no sítio vazio para onde olhava inutilmente antes de tudo isto. Carlos, quebrando o silêncio que se começava a instalar, pacificamente, olha de novo Clarisse, Sabes, eu penso que a maturidade, aquela que acaba por existir quando já se é de facto maduro, aquele maduro que já se confunde com velhice, passa pela assunção de uma simplicidade a que se tinha renunciado nos tempos da maturidade imatura, a maturidade iniciática, a proto-maturidade. Volta-se à infância. E mais cedo e acertadamente do que se possa pensar. Tu pensas de mais, diz ela, ainda por cima dizes não querer pensar, és um hipócrita, Não Clarisse, não sou, eu penso demais para não pensar. É difícil não pensar, ou pensar simples. Dá mais trabalho que pensar demais ou pensar complicado. Clarisse encolheu os ombros, complacente, e abanou a cabeça com uma expressão que dizia "Lá tás tu com as tuas confusões", mas entretida como uma criança, volta à leitura, afunda-se, Carlos afunda-se também, a pensar intensa e complicadamente sobre o nada.
rhizanthella, flower

Carlos IV

"O que se aprende não é com o que se pensa, mas sim com os mal-entendidos."
Vale Abraão, M. Oliveira

 

  Sentado a olhar pela janela, Carlos tentava imaginar a frescura do ar da manhã que corria pela parte de fora do autocarro, numa tentativa já quase desesperada de suportar o cheiro a mofo suado de estalagem medieval sobrepopulada que se fazia sentir. Ninguém parecia incomodado pois todas as caras eram neutras, todos os sentimentos e subjectividades de julgamento eram impiedosamente encarcerados no íntimo do Homem social; "um Homem será tão mais forte quanto mais amotivo for". Era esta a cátedra que todos os dias a praticalidade do quotidiano tentava impregnar em espíritos naïve como o de Carlos. No entanto, sentia-se cada vez mais isolado, marginalizado por si próprio na consciência de que a falta de esforço que caracterizava a sua teimosia era única: todos acabam por sucumbir à evidência do Homem moderno, do Homem urbano, do Homem eficaz; Carlos, pelo contrário, permanecia resoluto na sua concepção da emotividade, ou da sua absoluta inevitabilidade. Para ele, a emoção é eterna e omnipresente: é incorruptível.
  Perdia-se nas gotículas de água da parte de dentro do vidro embaciado, sujo. Apesar de embaciado precisamente pela quantidade de bocas e narizes enfiados naquele espaço urbano exíguo, a Carlos agradava-lhe que o vidro estivesse assim, fazia-lhe lembrar o Natal. Não que as recordações fossem boas, mas porque o futuro, por ser sempre projecto a executar, com a vantagem de nunca ter sido executado e decidido, pois senão não seria futuro mas sim aquele presente que já lá foi já é passado, reserva sempre a capacidade de ser positivo, de ser brilhante. Positivos e brilhantes esses Natais que o futuro me reserva, pensava entretido Carlos, enquanto um cheiro doce metálico o percorria avassaladoramente. Como que despertado, reparou na mulher sentada no banco em frente. Estava de costas mas ligeiramente enviezada, de forma que lhe era possível adivinhar o contorno dos seus traços meigos através dos cabelos claros e lisos, que lhe davam pelos ombros, numa silhueta que tinha tanto de doce e suave como de faraónica e geométrica. Quedava-se calma, passiva, como é costume agir nos transportes públicos, mas deixava transparecer, aos olhos de Carlos, uma inquietude denunciada por um menear frequente da cabeça, como se buscasse algo. Não buscava. Inquietava-se com o mesmo cheiro e densidade do ar viciado de dentro do autocarro que perturbava Carlos, e de repente Carlos sentiu-se embaciar como o vidro, sentiu que os olhos se lhe abriam mais clarividentes, e ela de quando em quando olhava quase na sua direcção, sem se cruzarem os olhares, mas o suficiente para Carlos se perder no azul vibrante dos seus olhos, sentia o seu aroma a amêndoas e menta, que já não era o seu cheiro real mas a imaginação de Carlos a fazer amor com o seu cheiro, Carlos queira-se perder naquele vidro, Carlos já não queria o ar fresco da manhã do lado de fora do autocarro, Carlos queria o autocarro para si, queria permanecer ali longo tempo numa posição desconfortável e a beber ferormonas como Zeus no Olimpo a beber o néctar dos Deuses. Próxima paragem, sai ela, sai ele, não porque fosse a sua mas porque sim, sente o fresco da manhã na cara, no seu espírito, escolhe o percurso mais curto para casa e mete-se a caminho, Então e a mulher?, Que interessa, já se foi, já não é, é passado que já foi futuro mas que o presente comeu.

  Abriu a porta, fechou-a lentamente, como se demonstrando respeito pelo objecto que incessantemente não deixa a rua entrar em casa, Clarisse está a fumar um cigarro no sofá, a olhar o infinito. Carlos expira pesadamente, fazendo por se notar o seu cansaço. Clarisse continua a fumar, imóvel. Hoje embaciei-me por dentro, no autocarro. Clarisse olha-o, estupefacta. Ai sim?, Sim, e reparei que as pessoas hoje já não se embaciam. Clarisse continuava a olhá-lo, tensa, não sabe porquê tensa, Porquê?, pensava, Não sei, respondia. Mas embaciar como?, avançou, decidida. Carlos sentou-se na outra extremidade do sofá de três lugares, ligeiramente enviezado para estar virado para ela. Embaciar-se com as coisas, os Homens já não sentem, ou por outra, não querem sentir, ou aliás, não querem demonstrar que sentem, não percebo porquê? Clarisse perdia-se um pouco no discurso, mas era pronunciado com tal intensidade que não teve coragem de pedir explicações, achou a dúvida parte da mensagem, e prosseguiu em frente, sempre em frente, Mas as pessoas têm de se proteger, e não se sente sempre, há sentimentos que modelamos, que não queremos ter e então fugimos, contêmo-los, tem que ser e é assim que se sobrevive, Isso é uma estupidez!, não se controla as emoções, o vapor impregna-se no vidro, não é um sinal de estacionamento proibido que faz o vidro ficar seco, transparente, Mas onde é que queres chegar?!, já com impaciência, o anúncio da cólera dos Homens. Carlos olhou para o chão do seu lado direito, como dizem que fazem as pessoas quando inventam sem mentir, Não acredito que me digas que só sentes as coisas que queres sentir, Não é bem... Carlos não a deixa continuar, embebido na eloquência da sua indignação, Não sentes?, vais-me dizer que te tornaste assim tão pouco animal, não sentes as coisas mesmo que não queiras?, não sentes repulsa por um cheiro nauseabundo?, por comida putrefacta?, não te sentes incomodada por um homem de má índole?, mesmo que não queiras?, e por merda?, merda!, não te sentes incomodada pela merda?, mesmo que não queiras?, dizes-me isso?!, Não, mas isso são coisas que... tentava ela sem saber a que porto iriam dar, e Carlos interrompia-a, Não sentes desconforto com a menstruação?!                   Silêncio.    Imbecil, pensou ela. Mas a menstruação só a tenho se quiser, valha-nos isso dos novos tempos. Então porque a tens? Que im-be-cil..., praguejou interiormente, separando as sílabas para caber mais força na expressão. Olhou Carlos, notava-se que era sincero, espantosamente sincero, Dá-lhe um ar de paladino perdido, pensava. Porque quero ser mulher, porque me faz sentir mulher, sei lá, e ouvi dizer que também faz mal não menstruar nunca, Vês?!, retorquiu Carlos entusiasmado, não o evitas porque não queres, porque te causa inevitavelmente uma sensação, ela impregna a sua sensação em ti, quer tu queiras quer não, Pois está muito bem, sabes o que te digo? Ainda não disseste, Digo-te que nesse caso isso é apenas uma prova de que as mulheres são mais Humanas que os homens, têm essa capacidade de se impressionarem ciclicamente, quer queiram quer não, têm a sua femininidade esfregada na cara todos os meses, pior, cada 28 dias, nem a 25 dias de descanso têm direito, vocês homens, podem evitar-se sempre, se o quiserem, podem viver para sempre fugidos da vossa essência, podem-se iludir, o vosso corpo não vos exige nem impõe nada, só têm de comer e de cagar e mijar, e soltou uma gargalhada sonora, contente com o misto de cheque-mate e parvoíce que lhe saía da boca. Carlos recostou-se no sofá, não com uma expressão de derrota infantil, como Clarisse esperaria, após o que se beijavam e amavam, mas com uma expressão de profunda ponderação, talvez até de pesar. Nós também menstruamos. Clarisse desmanchou-se em riso, Carlos não sorria, Essa vais ter que me explicar, desafiou com ar de troça. O homem menstrua cada vez que ama. Não inventes, porque raio... Porque amar é sofrer, mas mais para os homens, porque os homens no fundo perseguem sempre o ideal da independência emocional, da fortaleza, o ideal do belo selvagem, do saudável nómada viril, e quando amam, e se apercebem que das duas uma, ou não são capazes de ser o que querem, ou não querem ser aquilo que não passa de uma farsa pseudo-machista, sangram, menstruam, enlouquecem e não têm alternativa senão amar ou morrer, e portanto menstruam, pior que as mulheres, que podem escolher, os homens não podem, são assaltados pelo sangue e não têm alternativa senão aceitá-lo como irmão, não temos escolha. Clarisse olhava pela janela, perturbada não sabia se pela ideotice do discurso, se pelo complacente entendimento que lhe dava entrelinhas; de uma forma ou de outra, estava incomodada com o facto de não entender a paixão do discurso de Carlos. Olhava-o com curiosidade, o cigarro apagou-se-lhe entre os dedos, queimou-a, ela sentiu, não emitiu um som; deitou a beata no cinzeiro, pensou, Não te apagues nessa luz, não me faças apagar a minha luz...           Silêncio.   

  Menstruaste por mim?... Carlos olhou-a nos olhos, sentiu aquele vibrante de terra que lhe enchia a suavidade da pele morena. Menstruei, e ainda menstruo, que este futuro não há de o presente comer.